A NARRAÇÃO DE ALEJANDRO CUERVO

I

                Por ocasião de minha última viagem pela Espanha, realizada nos primeiros meses de 1936, cheguei por volta do meio-dia  de um dia  quente  ao  poeirento  povoado de G..., o qual, segundo me  disseram, em tempos idos fora um lugar de peregrinações. Agora, era apenas um lugarejo esquecido que se podia abranger num rápido olhar:

                Um casario pobre, típico de camponeses, se espalhava em torno da pequena igreja de tijolos, de construção tipicamente mais recente. Isto era tudo, e assim, minha primeira impressão fora decepcionante. Esperava um lugar de ruínas espetaculares, assombradas e cheias de histórias, e encontrava uma vila insignificante igual a todas as outras...

                Nos primeiros minutos fiquei a olhar em redor, as casas simples, a paisagem provinciana, as trilhas que se afastavam, sumindo no terreno ligeiramente ondulado, até que algo chamou minha atenção, um acidente que se destacava no conjunto e que, visto de longe, parecia  uma parede. Meu primeiro impulso foi ir até lá, mas não era uma distância que se pudesse percorrer tão rapidamente. Olhei, calculei o tempo que levaria indo e vindo, e nisso um camponês passou perto de mim, numa charrete.

- Hei, amigo! Pode me dizer o que é aquela coisa negra ali, longe?

- A parede, señor?

- Sim, a parede! respondi de ímpeto, feliz.

- Está ali há muito tempo, señor!

- Muito tempo, quanto?

- Muito tempo, señor.

- Saberia dizer-me o que foi aquilo?

- Histórias de gente velha, señor! Meu avô contava muitas, mas não lembro quase nada!

Senti que ele não estava disposto a ficar ali conversando, e propus-lhe:

- Poderia levar-me até lá?

- Estou trabalhando, señor.

                No primeiro instante, fiquei irritado e frustrado, mas mudei de tática. A oferta de algumas pesetas convenceu-o, e dali a minutos íamos ambos na charrete a caminho do local, meu novo  conhecido algo menos sisudo, mas mantendo sua política de economizar palavras, por mais que eu tentasse fazê-lo um pouco mais loquaz.

                Seguimos por um caminho ermo, por um bom tempo, até me deparar com uma parede, ou antes, com o que restava de uma, contrastando vivamente com o redor. Fora construída em pedra, mas toda a construção estava enegrecida, o que me fez pensar em um incêndio de grandes proporções. Formava um ângulo, um dos lados apresentava uma abertura do que provavelmente fora  uma janela. Perto, um  cemitério, e em volta de ambos, apenas a erva e  a sensação de abandono.

                Fiquei um longo tempo junto àquela parede, caminhando ao seu redor e examinando-a atentamente por  todos os ângulos, estranhando, sem poder definir que força era aquela que me atraía. Meu olhar se estendia por um instante até o cemitério, que parecia menos abandonado,  depois voltava à parede, como se um ímã retivesse-o ali.          

                Tão absorto fiquei na contemplação daquela estupenda ruína, que me esqueci que não estava sozinho. Meu acompanhante, que não desceu do veículo, ao fim de algum tempo fez-se lembrar:

- Señor, não posso me demorar!

                Com  algumas outras pesetas ganhei o direito de ficar alguns minutos mais, que aproveitei para fazer anotações num bloco de papéis que tirei do bolso. Olhei para o cemitério e perguntei:

- Ainda se faz enterros aqui?

- Não, señor. Quando eu era menino, construíram o cemitério novo, lá na vila. Mas meu finado pai contava ter assistido ao último enterro feito aqui...

- E quando foi?

- Não me lembro, señor... 

                Escrevi rapidamente algumas linhas e tratei de voltar antes que tivesse que desembolsar mais algumas moedas.  Apontei para a parede e perguntei-lhe:

- Alguém lhe contou o que foi isso antigamente? Uma igreja antiga?

- Talvez, señor. Mas são histórias de gente velha...

                Voltamos ao povoado. Depois de algum tempo, tratei de procurar um local para me hospedar, conseguindo obter alojamento em uma casa com pretensões a hotel, num quarto onde duas redes faziam o papel de cama. Depois, dirigi-me até a igreja, pequena, de tijolos, como toda igreja dos vilarejos do interior. Teria sido levantada provavelmente no fim do século passado. Os bancos estavam vazios, mas o padre estava  junto do altar, e, ouvindo passos, voltou-se. Saudei-o, ele respondeu fazendo o sinal-da-Cruz enquanto se aproximava:

- Boas tardes, irmão. Posso ajudá-lo em algo?

- Boas tardes, padre. Sou Alejandro Cuervo, escritor. Cheguei ainda há pouco neste povoado, e desde a minha chegada, estou curioso e intrigado com aquela construção antiga lá em cima ( e apontei na direção). Um velho camponês disse-me que era a antiga igreja. O senhor poderia dizer algo mais, por favor?

- Creio que muito pouco. Disseram-me que fora uma grande catedral que desabara. Correm muitas histórias a respeito, gostaria de conhecê-las?

- Certamente, se não for perturbar seu ofício.

- Aqui tudo é muito tranqüilo, por vezes tranqüilo demais! Agrada-me quando recebemos visitas de gente de fora, sempre é oportunidade para uma conversa sobre algo diferente. Se lhe agrada, conversaremos enquanto tomamos um chá, até a missa vespertina...

- Será um prazer, padre.

                Saímos da igreja e fomos para a casa paroquial. Era um homem de meia-idade, que fora transferido para esta vila uns vinte anos atrás. Logo estávamos acomodados em uma poltrona aconchegante, esvaziando diversas xícaras de um ótimo chá:

- Como lhe disse, senhor Cuervo, correm muitas histórias sobre as ruínas. Dizem uns que teria sido uma catedral destruída numa batalha entre as forças de Bonaparte e as nossas; segundo outros, durante as lutas entre os liberais de Cadiz e a Santa Aliança[1]. Não falta quem jure ter visto fantasmas nem quem tenha vindo em busca de tesouros, mas nenhum foi encontrado, que se saiba. Também se diz de um padre herético que haveria assassinado a diversos por meio da santa comunhão, usando uma hóstia envenenada, e por causa disso, a igreja teria sido amaldiçoada. E ainda, a história mais repetida, é que duas religiosas, com ares de santidade, teriam feito milagres...

                Foi interrompido por um arrastar de pés e barulho de coisas caindo. O padre levantou-se, e entrou na sala um velho curvado, de passos trôpegos e desajeitados, tão velho que parecia ter saído das histórias do padre. Suas mãos e pés tremiam tanto, que parecia um boneco desengonçado, seu sorriso tinha um quê de infantil. Vestia-se também como sacerdote, hábito negro e um cinto. O cura  se aproximou  e falou-lhe com carinho:

- Espere, irmão, calma! Aonde queres ir?

- Tenho que orar... tenho que pedir às santas irmãs o perdão dos meus pecados...

- Agora não... fique calmo, tens que descansar... veja, irmão, temos visitas! disse, mostrando-me.

                O velhinho me olhou com um olhar em que não havia a menor réstia de lucidez. Como se eu fosse um velho conhecido, olhou-me com susto e surpresa. Eu me levantei e me apresentei:

- Bons dias, senhor... ( hesitei em chamá-lo também de padre) Alejandro  Cuervo, escritor.

- Tu és o corvo? Não te vejo com asas...

- Cuervo, senhor, é meu nome de família.

- Foi uma bênção... ou uma maldição, não é verdade?

- A que o senhor se refere?

- Tu sabes... aquilo...

                E apontou na direção da ruína. O padre se aproximou e disse-lhe:

- Ele não sabe... ele não sabe, padre...

- Não sabe? retrucou o velho, como se tivesse ouvido algo absurdo. Não conhece, mas conhecerá... e quando conhecer, falará! "Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará"! Palavra da salvação!

- Graças a Deus, respondeu o padre. Agora venha, venha...

                Pobre homem, pensei. Coisa triste, a senilidade... o pároco pediu-me licença e levou-o para dentro, voltando logo,  só e sorrindo. Perguntei-lhe:

- Quem é ele? É padre também?

- Foi, muito austero, dedicado e ortodoxo. Mas agora fala coisas sem sentido, quase sempre de eventos remotos como se houvessem ocorrido ontem. Também já é muito velho, penso que deve ter quase cem anos. Mas quase não dá trabalho, e é inofensivo...

- E quem são as santas irmãs?

- Ah, é seu assunto preferido. Aliás, estava para falar-lhe disto quando ele chegou. É uma das lendas que correm por aqui, duas religiosas que teriam feito milagres...

                Ele não continuou. Insisti:

- Sim, e que mais?

- Histórias, apenas. Os jovens têm outros interesses, não têm curiosidade por coisas do século passado. Só os velhos falam, mas cada um conta uma versão totalmente diferente das outras... um pouco mais de chá?

- Sim, obrigado... mas, é possível que haja algo de verdade no meio de tantas lendas, não?

- Certamente, já que o provérbio diz que toda lenda tem um fundo de verdade... mas como ter certeza? Não chego a ter paixão por estes assuntos, apenas servem-me para um pouco de distração...

- Mas, certamente deve haver algum documento, algum registro dos fatos...

- Se existir, será talvez na alcaldia, mas não o creio. Tanto quanto sei, não há qualquer registro que tenha sido guardado, sobretudo porque talvez o senhor não saiba, mas esta vila não existia então. A que existia naquela época ficava mais longe...

- Não existe mais?

- Foi destruída, como tantas outras. Afinal, foi uma época cheia de guerras e conflitos, as invasões napoleônicas, a Revolução de Cadiz, as guerras carlistas, muita destruição, muita pilhagem...

- E na igreja, não se encontraria algo? Afinal, quando ocorre milagres, desperta o interesse da Igreja, há investigações...

- Certamente que não. Se havia algo, seria na construção original que foi destruída. Esta igreja foi construída muito depois, e se tivesse algo, certamente eu saberia. É claro que os milagres merecem investigação, mas muitos são os casos tidos por milagrosos que dão origem a cultos não-oficiais, que fazem furor durante algum tempo, depois desaparecem. Penso que este pode bem ter sido um caso assim...

                Assim conversamos até a hora da missa, quando então ele me despediu, acompanhou-me até a porta, convidou-me para o ofício  e recomendou que voltasse a vê-lo sempre que desejasse. Saí devagar, olhando para a direção da ruína que o pôr do Sol tornava menos visível, andei por algum tempo sem rumo certo, apenas para dar asas ao pensamento, respondendo distraidamente à saudação das pessoas que se dirigiam para a igreja.

                A tarde caía depressa, e resolvi voltar para a hospedaria. Passei outra vez pela casa paroquial  e de longe vi o velho padre senil, que me acenava e fazia sinais para que eu me aproximasse. Hesitei por um instante, depois venceu a curiosidade e me aproximei:

_ Olá, corvocito, disse o velho sorrindo infantilmente.

_ Boas tardes... padre. Retruquei, sempre sentindo dificuldade em dar-lhe o título.

_ Diga a verdade, apenas a verdade. Foi o padre Gervásio quem mandou-o aqui, não?

                A pergunta me surpreendeu. Não se referia, certamente, ao padre que deixara ainda há pouco.

_ Quem é padre Gervásio? Perguntei.

                O velho fez um ar desencantado, como uma criança decepcionada. Fez uma careta, pensei mesmo que ia chorar. Levantou de novo o rosto e quase sorriu, perguntando de novo:

_ Diga depressa, chegou o dia?

                Entendi menos ainda. Por que ficava ali a tentar entender o que dizia um velho que a idade tornara senil? Perguntei de novo, quase sorrindo:

_ Dia de quê, padre?

                O velho respondeu, porém gesticulando e me encarando com uma solenidade tão afetada que chegava a ser ridícula:

_ Quando ele chegar, tu saberás...”

                A seguir, deu uma risota imbecil e se afastou, sempre rindo baixinho e tropeçando nas pernas, enquanto eu me afastava, sorrindo de pena, caminhando para o Hotel.

                Cheguei, subi até meu quarto e deitei-me na rede, pensando ainda no acontecido, para dali a pouco sentir um leve torpor que principiava a me envolver.

                Tornei a dar por mim entrando numa igreja magnífica. Olhei em volta e levei um susto, ao ver-me diante de uma congregação feminina. As monjas iam e vinham, algumas bem perto de mim. O que fariam se me vissem ali? Seria um escândalo, certamente, sem que eu pudesse explicar nada. Olhei em volta, procurando a saída, procurando algum lugar discreto onde pudesse ficar a salvo dos olhares de todos, mas fui percebendo que ninguém parecia dar pela minha presença.

                Uma religiosa, contudo, olhou-me fixamente nos olhos, o que bastou para me apavorar. Já podia ouvir os gritos, senti desejo de sair correndo, movia nervosamente as mãos, mas ela nada falou. Olhei-a de novo, mais controlado depois de alguns segundos, fazendo menção de me dirigir a ela, afim de tentar explicar minha presença e por minha vez pedir alguma explicação, mas ela pôs o dedo índice nos lábios, para que eu me calasse. Fiquei imóvel, então, ela balançou a cabeça afirmativamente e seguiu adiante, misturando-se à congregação, e perdi-a de vista.

                As monjas iam tomando suas posições, e era como se eu estivesse invisível. Outra monja então pôs-se a fitar-me. Esta pareceu assustada, quase a ponto de gritar. Imitei o gesto da primeira, para  que não o fizesse, ela obedeceu,  mas continuou  a me olhar cheia de medo e susto. Fiz então o sinal-da-Cruz, o que pareceu diminuir seus receios, ela passou a olhar para a frente, ainda que tenha podido  surpreendê-la a me olhar de soslaio algumas vezes.

                Foi quando um padre chegou até o altar-mór e todos se ajoelharam, inclusive eu, fazendo o sinal-da-Cruz. O sacerdote pôs-se de costas para a congregação, voltando-se para o altar e falando em voz alta:

- In nomine Patre et Filii et Spiritu Sancti!

- Amem! Respondia a congregação.

- Introibo ad altare dei.

- Judica me, Deus et discerne causam meam de gente non sancta, ab homine iniquo et doloso erue me...

                Seguiam-se as frases litúrgicas pronunciadas pelo padre e respondidas pela congregação.

- Confiteor Deo omnipotenti, beatae Maria semper Virgini; beato Michaeli  Arcangelo, beato Joanni Baptistae, Sanctis Apostolis Petro et Paulo, omnibus Sanctis, quid pecavi nimis cogitatione, verbo et opere: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Ideo precor beatam Mariam semper Virginem, beatum Michaelem Arcangelum, beatum Joannem Batistam, Sanctos Apostolos Petrum et Paulum, omnes Sanctos, orare pro me ad Dominum Deum nostrum...[2]

                O ofício se prolongou até o "missa finis est", quando começaram a sair todas lentamente. Passaram por mim as duas religiosas que me viram, olhando-me apenas de passagem, enquanto eu esperava sem saber bem o quê.  Depois, dirigi-me para a saída, sem a menor idéia do que me esperaria. Instintivamente, voltei-me para o altar-mór, fiz o sinal-da-Cruz e passei pela pia de água benta, umedecendo os dedos e repetindo o gesto.

                Ao sair, a surpresa foi completa. Por um rápido instante, a sensação era de que a multidão se dissolvia na noite, mas logo a seguir não havia mais qualquer multidão. Estava tudo vazio à minha frente, não havia ninguém. Fiquei atordoado por um instante, olhei para trás e não havia mais igreja. Olhei em volta e tudo o que via era a parede de pedra.

                Acordei então. O senso de realidade fora tão grande que por um momento não reconheci o local onde estava, foram precisos alguns segundos para voltar a mim. Lavei o rosto numa bacia com água e, enquanto fazia minha higiene matinal, fazia novos planos.


[1] Vide nota 27. 

[2]Nesta parte da missa tradicional, padre e congregação confessam ter pecado por atos, palavras e pensamentos, pedindo a intercessão dos santos junto ao Senhor Deus para que lhes perdoe os pecados de que se confessam.

 

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