AO MENOS POR UM SONHO

Menção Honrosa no IV Concurso Raimundo Correia de Poesias, promovido pela Shogun Arte e Editora, em 1985.

Quem quer que sejas, sombra vaga, vem.
Pousa em meu teto, já que vens sozinha,
Há uma cadeira vaga, junto à minha
E nela há tempos não se senta alguém.

Seja apenas um pouso, enquanto a linha
Do horizonte ainda é escura mais além,
Que muita vez o viajor não tem
Toda a ilusão que no começo tinha.  

Seja apenas um pouso, pois. E quando
Chegada a hora de partir, te fores,
Talvez olhes, às vezes, para trás...

Certamente como eu, irás pensando
Que o mais belo de todos os amores
Foi o que foi um sonho, e nada mais...

 

Rio de Janeiro, 10 de janeiro de 1984.

 



SORVEDOURO

                                    a Luciene

Bordas quietas, murmuras somente
No sorvedouro deste lago fundo!...
Há nelas todo um vasto e imenso mundo
De fogo e sonho e de paixão ardente.

Que abismo que a fluidez desta corrente
Deixa entrever nas vagas de um segundo,
Que sorvedouro há de se abrir, profundo,
A quem entrar em suas águas tente...  

Que mundo imenso escondes em teus olhos,
E os meus lábios têm sede!... E que tesouro
Ao alcance das mãos!... Mas tenho medo

Das cascatas, das pedras, dos escolhos
Que se escondem no fundo sorvedouro
Que há nos teus olhos cheios de segredo.

 

Rio de Janeiro, 06 de agosto de 1984.

 


CANTO DE AMOR AOS ESTUDANTES MORTOS

1º lugar no concurso “O Povo na Literatura”, promovido pela Litteris Editora e Jornal   “O Povo”, em 1992.

 

Por todos os seus sonhos mal traçados
nas noites mal dormidas
venho falar de amor
por todos os amores não vingados,
por todas as feridas
que não sabem se vão fechar ou não,
embora fechem.
Por todos os seus gritos de protestos,
todos os absurdos que acordaram
a chama do ideal
e por todos os restos
das ilusões que não vingaram
venho falar de amor.
Por todas as barricadas
pelos quatro cantos do mundo erguidas
em favor do ideal,
todas as fantasias mal traçadas
ao preço às vezes de suas vidas
venho falar de amor
que havia em seus mais violentos gestos
e em seus mais vagos sonhos
de um mundo renovado e bom.
Por suas utopias mais sinceras,
por todas as quimeras,
todos os manifestos
ainda os mais violentos e medonhos,
por seus versos de sonho e amor maior
venho falar de amor
pela sinceridade de seus sonhos,
suas bandeiras vagas,
seus mundos novos
e os amores eternos de um instante,
regados quanta vez a chope,
e quanta vez a sangue...
Agora é tarde pra salvar o mundo,
cerrar fileiras
e marchar para o rumo do ideal,
a desfraldar bandeiras
cobertas da poeira do passado
e sempre novas,
que as bandeiras não salvam:
Só nos salvamos todos juntos, de mãos dadas
ou vamos todos juntos partilhar as covas.
Dormindo agora
que as sementes incertas de seus sonhos
cresçam e tomem forma como um feto
enquanto aflora
a nova geração que espera
de coração inquieto
que os sonhos vagos tomem forma e vida
para que a luz da nova era
depois das dores
seja então concebida.

 

Rio de Janeiro, 10 de outubro de 1988.

 


INTUIÇÃO

Menção Honrosa no Concurso Raul de  Leoni de Poesias, promovido pela Academia Tricordiana de Letras e Artes em 1995.

 

Quisera não ter palavras:
Bastasse um gesto, um olhar
pra que as coisas que não digo
tu pudesses decifrar,  

que, em tocando a minha pele
o mais suave tremor
traduzisse as poesias
que em vão procuro compor,

que o sussurro de meus lábios
sonhando encontrar os teus
repetissem tantas preces
que não pus aos pés de Deus.

Mas por que te digo tanto
se não sei se me acreditas
quando digo tantas coisas
por palavras nunca ditas?

Queres juras, queres versos
e eu tento dizer em vão
sentimentos que me afogam
e não acham tradução,

e me pedes, ai, palavras,
pássaros soltos no ar
que surgem por um instante
e se vão pra não voltar,

enquanto numa gaiola
trancada em minha garganta
vibra um pássaro cativo
cuja voz não sai, não canta,

mesmo tendo dentro em si
os meus versos mais bonitos
dos poemas mais perfeitos
que jamais serão escritos.

Vila Pacaraima, 04 de julho de 1991.

 


IDADE DO OURO

Tento dizer de novo
cada palavra que jamais falei
que falava de amor, e eu não sabia amar.
Tento viver uma vez mais
todos os sonhos que jamais viveram
e pedem uma chance pra ressuscitar.
Eu busco ser, quem sabe,
um “eu” antigo que foi só uma lenda,
nunca existiu
senão na Idade do Ouro,
perdido paraíso
de que tão bem me lembro
embora eu nunca tenha estado lá...

 

Três Corações, 31 de maio de 1996.

 

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