TERRA SEM DEUS

CAPÍTULO I

 

            O susto não poderia ser menor. Severino olhava angustiado para aquele mundo monstruoso e alucinante par o qual acabava de entrar. Em sua visão simples de mundo, nunca tinha imaginado uma coisa assim... tão grande, que ameaçava engoli-los.

            O barulho ensurdecedor das máquinas que não paravam de gritar, fazendo a cabeça doer-lhe, maltratando-lhe os ouvidos que eram tapados e mesmo assim continuavam a doer...

            Os carros corriam como loucos, quase o atropelavam, as buzinas gritavam, as pessoas se acotovelavam nas ruas sem se falar, sem se tocar.

            Severino olhava, assustado, para o Rio de Janeiro que se apresentava aos seus sentidos pobres de homem simples, acostumado à vida pacata em Boi Selado, com sua terrinha, sua gente conhecida, tudo aquilo que vira sumir há muitas léguas através de uma traseira de caminhão.

            Ele não sabia, mas sentia que aquela cidade era demais para ele. Seus olhos miravam sempre o asfalto do chão, os edifícios enormes, os carros velozes, voltasse o rosto para que lado fosse.

            Olhou para o filho, que vivia o mesmo susto, sentindo o impacto violento daqueles primeiros minutos em que pisavam a cidade grande. O homem de mais de quarenta e o filho de treze anos sentiam a mesma sensação de pequenez e fraqueza, o mesmo medo impregnado nas quatro pupilas.

            Começaram a andar. Era preciso arranjar um emprego e um canto para a família ficar, tudo isso em uma semana, o tempo em que poderão ficar no albergue, ao abrigo da fome e do relento. Mas, por onde começar?

            Um labirinto de ruas  fervilhando de pessoas se oferecia à visão atônita do sertanejo acostumado às coisas simples. Sentia-se perdido, tinha que escolher um caminho à esmo sem nada para guiá-lo naquela multidão estranha de uma cidade mais estranha ainda.

            Olhava para todas aquelas direções, sentindo-se incapaz de distinguir qual delas o levaria à segurança que procurava. Quis perguntar a alguns passantes, chapéu na mão, no entanto nenhum deles parava para ouvi-lo. Continuou a andar desorientado, olhando os letreiros  sem poder decifrar o que diziam, pois era analfabeto.

            Pai e filho passaram por um homem de pernas desengonçadas que tentava vender bilhetes de Loteria Federal, arrastando-se com o auxílio de um toco de pau. O olhar choroso, o corpo ossudo sob os molambos que mal o cobriam, tudo isso mostrava o aspecto típico de uma doença chamada fome.

            Um pouco mais à frente, um velho estendi a mão aos transeuntes. À sua esquerda tinha uma muleta ensebada. À direita, o chapéu velho e furado continha algumas cédulas encardidas. O corpo e a barba branca estavam sujos e maltratados e numa das pernas uma ferida exposta atraía moscas que ele às vezes lembrava-se de espantar com a mão.

            Mais adiante, uma mulher de rosto escaveirado vestia um casaco verde, destes que, dado aos infelizes ou à lata de lixo não fazia diferença. A sujeira do corpo, o desalinho dos cabelos grisalhos e o estado das roupas (?) contavam uma história amarga, mas corriqueira.

            Passaram por eles alguns meninos mal-vestidos e descalços, gritando palavrões. Pai e filho sentiram-se chocados, mas os demais seguiram, indiferentes. Era coisa normal.

            Em Boi Selado não era assim, pensava Severino. A pobreza lá era muita, mas uns ajudavam os outros na medida do possível. Mas aqui via pessoas bem vestidas passarem sem olhar para os velhos, mulheres e crianças que dormiam com fome na rua.

            E se não encontrasse trabalho? Perguntava-se intimamente, pensando na mulher e nos filhos, comparando-os com esses mendigos que via em verdadeira exposição de fome e miséria, imaginando que ele e os seus poderiam acabar fazendo parte dela.

            Chegou a uma construção. Um negro, de britadeira na mão, fazia um barulho ensurdecedor. Severino animou-se e chegou mais perto, mas o barulho não parava. Era uma tortura, mas também era trabalho.

            Aproveitando uma pausa do trabalhador, perguntou-lhe entre animado e temeroso:

_ Moço, o sinhô pode me dizê adonde tem serviço pra mim?

_ Sei lá, porra! Fala lá com o homem! Respondeu gritando.

            Diante do tom da resposta, Severino não se animou a perguntar qual homem. Olhou para outro ali perto, mas teve medo de receber resposta parecida, ficando a olhar para um e outro como uma criança perdida. Foi quando o fiscal da obra chegou perto dele e perguntou:

_ Qual é, meu chapa? Que é que tu quer?

Aquilo foi um alívio para o nordestino, que esboçou um sorriso e repetiu a pergunta feita ao negro. Mas o fiscal parecia estar esperando-a, porque respondeu logo:

_ Pô, é uma pena mas nõa tem mesmo. A verba acabou e a construção vai parar. Já tamo’ começando a mandar gente embora.

_ ‘Brigado assim mermo, seu moço...

            Recolocou o chapéu e voltou, desanimado. Tornaria a procurar no dia seguinte, ainda tinha seis dias para procurar, que um praticamente já acabou. Depois, não sabe.

            Olhou então para o filho, sentindo que ele estava assustado. Gostaria de dizer-lhe alguma coisa que o tranqüilizasse, mas ficou calado, com medo de que uma palavra sua traísse a própria insegurança. O menino também não falou nada, embora os pensamentos de ambos fossem parecidos, tanto quanto possam ser os de um garoto de treze anos com os de um homem de mais de trinta.

            Voltaram em silêncio, com o dia morrendo. O movimento caíra um pouco, mas estão muito assustados para percebê-lo. O barulho que suportaram o dia todo parecia ter-lhes impregnado os ouvidos, sentiam a cabeça doer.

            De volta ao albergue, a mulher interroga-o com os olhos. Ele balança a cabeça negativamente e completa:

_ Amanhã quem sabe... Nosso Sinhô há-de ajudar...

            A mulher sentiu o medo e a dúvida na voz dele, mas não disse nada. Jantaram e foram dormir, ela sentindo os nervos do marido à flor da pele. Depois de passar boa parte da noite acordado, finalmente Severino conseguiu umas poucas horas de sono.

 

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